CASA MILHAZES


No terreno de uma antiga serração surgiu um loteamento de 56 lotes. O lote Milhazes, com cerca de 370 m2, imiscui-se entre os talhões rectangulares de pendentes variáveis. Quando o projecto se iniciou, os terrenos envolventes estavam livres, não havia qualquer referência arquitectónica significativa. Afastadas surgiam as primeiras construções obedecendo ao estereótipo da arquitectura vulgar, casas cujos pisos se circunscrevem no polígono rígido, rectangular de 2 pisos e cave e que se impõem grosseiramente ao terreno. As regras estabelecidas no regulamento do loteamento possibilitavam uma grande diversidade na apropriação do lote. A volumetria permitida pelo loteamento estabelecia um volume de 2 pisos com 7 m de largura acoplado num volume de 1 piso recuado 5 metros e que se estendia a toda a largura do lote O jogo iniciou-se, ao programa definido pelo cliente juntaram-se a pendente natural do terreno e as potencialidades ou entraves criados pelas normas urbanísticas, e claro também, a expressão arquitectónica do autor do projecto.
O objectivo: responder satisfatoriamente ao cliente e criar uma peça arquitectónica regida pela simplicidade e harmonia volumétrica, inovação na estruturação espacial interior e consequentemente diversidade de interacções entre o interior/exterior.
Assim, e por vontade do cliente, a garagem para um automóvel localiza-se no piso térreo. Este é um ponto de partida importante, uma vez que este espaço terá uma leitura forte no alçado principal, na distribuição interior dos compartimentos e na acessibilidade à casa.
A casa obedece aos alinhamentos definidos para o volume de dois pisos, e apoia-se no muro Poente ao nível do rés-do-chão, optando-se por libertar o espaço lateral nascente do lote, permitindo-se a sua permeabilidade até ao extremo posterior.
Deste modo, o acesso à habitação faz-se lateralmente. O vão da entrada rompe a fachada lateral e evidencia-se por ser a única abertura no piso térreo visível da rua. No exterior, o percurso linear e paralelo à fachada lateral conduz à entrada e prolonga-se até ao pátio posterior.
Os três quartos solicitados não permitiam simetrias em planta, e isso enriqueceu a disposição interior dos compartimentos e o recorte volumétrico do piso superior. A chave encontrava-se na localização da escada que lateralizada ocupou o canto da habitação mais próximo da entrada, diminuindo percursos. A escada em madeira e ferro permite jogos visuais e transparências desde a cave, sendo iluminada pela grande abertura que desafia a esquina da fachada lateral do piso superior. Na fachada principal o vão circular do piso superior ilumina um quarto. O outro quarto e a suite abrem-se para o alçado posterior e ambos desfrutam do terraço, do sol e das vistas permitidas pelo declive favorável do terreno envolvente.
Ao nível do piso térreo situam-se, ainda, o banho de serviço, a cozinha e a lavandaria que se abrem para outro pátio ajardinado conformado pelo painel de madeira que se destaca na fachada principal, dando-nos a sensação de que o portão da garagem deslizou e se encontra aberto. Neste piso a sala estende-se em toda a largura da fachada posterior e prolonga-se para o estrado exterior de madeira ou ‘alpendre’, para o jardim relvado e espelha-se nas águas da piscina. O alpendre conjuntamente com a varanda do quarto suite são envolvidos e conformados pelos paramentos laterais que prolongam as fachadas laterais e pela projecção da cobertura que unifica o alçado posterior. Assim, a leitura unitária do alçado é enfatizada pela materialização da varanda do piso superior em estrado de madeira, pelo enclausuramento dos vãos com portadas de correr também de madeira e pelos paramentos que harmonizam e evidenciam o recorte volumétrico do piso superior.
Por sua vez, a cave libertada de usos menos nobres contempla uma sala de cinema e um bar e abre-se para o pátio posterior que permite a sua iluminação e ventilação natural.
Ao nível dos arranjos exteriores procurou-se dotar o parco espaço de uma diversidade de lugares, composto por pátio, terraço, logradouros anterior e posterior, que possibilitam inúmeros usos e relacionamentos quer com o interior, quer com o exterior. O elemento água está ainda presente no lago que separa o percurso da entrada do acesso à garagem.
De dia, o volume branco, sólido, que se abre francamente para Sul, evidencia-se na envolvente pela simplicidade volumétrica, linguagem arquitectónica e pelo contraste do material que o reveste, o reboco branco, o vidro e a madeira. À noite, a iluminação interior parece esventrar a casa, os vãos ganham outra dimensão, transpiram luz, criam-se diferentes jogos visuais e os ripados de madeira da varanda e alpendre dinamizam o alçado posterior com diferentes jogos de luz/sombra.

FICHA TÉCNICA


 

Projecto de ArquitecturaAntónio Fernandez, Architects

Colaboração / Ema Rosmaninho

Engenharia / António Alves Reis

Construtor / Adelino Figueiredo

Cliente / Milhazes

LocalizaçãoPóvoa de Varzim

Data do Projecto-Conclusão / 2003-2007

Publicações

Arquitectura e Construção nº 57