AVER-O-MAR HOUSES


Inicialmente a encomenda resumiu-se à elaboração do loteamento. A arquitectura da construção viria depois. Os projectos foram gizados separadamente. O terreno era bastante singular, em forma de ‘bacalhau’, confrontava na sua maior dimensão com a rua situada a Poente e diminuía a sua largura de Norte para Sul com uma ligeira torção. A formatação do terreno e os seus limites contribuíram para o surgimento de algo novo naquela área: a edificação totalmente adaptada ao terreno e o cuidado arquitectónico incutido a toda a intervenção.

Assim, o loteamento obedeceu às regras do plano vigente no local e adoptou algumas inovações na definição dos seus parâmetros urbanísticos, que permitiram a posterior concepção das oito habitações de modo peculiar. O loteamento insere-se numa zona de transição entre a área de construção caótica de Aver-O-Mar, composta por edifícios multifamiliares de quatro ou mais pisos, localizada a Poente do arruamento e perto da praia, e a Nascente a área de moradias unifamiliares, com uma arquitectura incaracterística, em consolidação do seu tecido urbano e onde ainda proliferam extensos campos agrícolas. O plano municipal em vigor estabelecia três pisos para o local e habitação unifamiliar e pretendia romper um novo arruamento no sentido Poente/Nascente. Estes foram os pontos-chave a ter em consideração nas opções do loteamento, conjuntamente com a singularidade da formatação do terreno. Surge, pois, o conjunto arquitectónico onde a diversidade tipológica, alcançada nos projectos de arquitectura das oito habitações unifamiliares, encontra aqui lugar e se alia à unidade morfológica que atribui o forte carácter à intervenção.

As habitações destacam-se no tecido urbano. A linguagem arquitectónica peculiar, a uniformização na aplicação dos materiais de revestimento, a continuidade dos vãos, a adopção dos mesmos princípios no acesso às casas, a colocação do telhado (que repete os limites do terreno e que, tal como ele, se encolhe e estreita para Sul evidenciando a sua inclinação) idealizado como um único telhado que pousa sobre as oito moradias, sendo posteriormente recortado e adaptado a cada uma delas de modo a manter a inclinação e forma originais, contribuem para o surgimento de uma peça única de arquitectura, composta por quatro habitações no conjunto Norte e quatro habitações no conjunto Sul. Apenas duas habitações se repetem, as duas casas situadas no meio do conjunto Norte. As restantes casas adaptam-se aos limites da sua mancha de implantação e às características dos lotes. Deste modo, no conjunto Norte as habitações dos extremos, bem como a habitação Norte do conjunto Sul possuem os acessos apoiados nos arruamentos laterais. No conjunto Sul a habitação mais afunilada, bem como as habitações do meio dos dois conjuntos, possuem o acesso a partir do arruamento Poente. A estas últimas acedesse através de uma rampa que conjuntamente com a rampa de acesso à garagem conforma o pátio de entrada nas habitações. Esta solução permitiu regrar todo o conjunto arquitectónico, dando-lhe coerência, de modo a não enfatizar a diversidade tipológica que alberga o interior de cada habitação. Todas as portas de entrada foram dissimuladas na fachada, constituem mais um painel de madeira, que apenas se manifesta pela existência de alguns sinais externos. Por sua vez, a localização dos acessos contribuiu para a concepção e organização dos espaços interiores. Assim, no interior, a comunicação vertical é o elemento diferenciador de cada uma das habitações e é em torno dela que todo o espaço interior é concebido. No conjunto, o elemento escada mexe e roda, de modo a permitir o melhor aproveitamento do espaço interior e a maior adaptação a cada um dos lotes. Individualmente, a localização da escada, permite incutir a cada uma das habitações a sua singularidade. São escadas de mármore, com simples corrimão tubular que se torce e molda à subida, ou corrimão de vidro para maior transparência e continuidade espacial. Na casa Norte, a escada vive do hall com pé-direito duplo que é inundado pela luz da clarabóia que trespassa todos os pisos até à entrada.

Os critérios utilizados para a organização interior de cada uma das habitações também garantem a uniformidade preconizada. No rés-do-chão situa-se a sala de estar, a cozinha complementada pela lavandaria e despensa, o banho de serviço e, sempre em estreita ligação com a cozinha, a sala de jantar. No primeiro piso localizam-se os quartos, (quatro no projecto original, transformados em três quartos em algumas habitações do conjunto Sul no decurso da obra) um deles com banho privativo e o banho comum. No aproveitamento do vão do telhado situa-se o estúdio, área de contemplação que se abre através dos grandes envidraçados para o terraço e se prolonga visualmente para os campos agrícolas localizados a Nascente. Na casa Sul, onde o telhado é mais assotado e o pé-direito muito baixo, o estúdio foi eliminado. Na cave localiza-se a garagem com capacidade, no mínimo, para dois automóveis e uma sala polivalente.

Em comum a todas as habitações: a abertura de todas as salas de estar a Poente; a interligação cozinha/sala de jantar criada através de móveis envidraçados que permitem antever silhuetas e onde uma abertura no móvel permite uma mais franca ligação visual e espacial, ou através de grandes painéis de correr capazes de converter os espaços e ampliá-los quando abertos, transformando-os num só espaço, ou diferenciá-los fisicamente quando fechados.

No interior de todas as habitações apostou-se também na uniformização dos materiais: mármore no hall de entrada, nas escadas, cozinha e banhos. O soalho de madeira dá harmonia ao restante pavimento interior e incute um aspecto acolhedor às áreas de permanência, salas e quartos. Os painéis de correr de madeira e vidro que modelam e transformam os espaços interiores conjuntamente com a concepção do mobiliário fixo, designadamente os grandes móveis de vidro, constituem a grande inovação do projecto, ao nível do espaço habitável.

As cozinhas e salas de jantar abrem-se para o pátio posterior relvado através de grandes vãos e nas casas do meio dos dois conjuntos, as salas de jantar são visualmente trespassadas desde a rua até ao pátio posterior. A cave é também iluminada e ventilada através do vão dissimulado sob o estrado de madeira que prolonga a sala de estar para o exterior.

Nos arranjos exteriores foi utilizado o mesmo cuidado interior na selecção dos materiais. Os logradouros são relvados, os acessos às garagens são em cubo de granito e os da habitação em placagem granito. No logradouro Poente os estrados em madeira prolongam as salas de estar e as divisórias entre lotes são de vidro. Como peculiaridade no projecto surgiu o lago na casa Norte, pontuado por círculos que permitem a sua travessia. O vão da sala de estar ao nível do lago permite trazer este para o interior e a sala é animada pelas flutuações da água e os movimentos dos peixes que nela habitam. Mais dois lagos foram concebidos no decurso da obra a pedido das proprietárias e, assim, contribuíram para enriquecer mais o espaço exterior.

Os muros de vedação, os portões metálicos, as caixas de correio e os paralelepípedos de madeira que albergam o gás, uniformizam todo o conjunto e foram motivo de preocupação ao nível do desenho.

Assim, a caixinha de madeira e vidro no rés-do-chão e mármore no piso superior quando fechada, dá lugar a uma intervenção ritmada composta por portadas de madeira todas perfiladas e transparências que permitem antever os espaços e estes abrem-se para o exterior e iluminam-se. As ‘bolhas’ que sobem as fachadas laterais permitem iluminar as escadas durante o dia e à noite é o exterior que é iluminado por elas. Os vãos recortados no mármore com formas que aludem ao lugar (mar/terra; pesca/agricultura) iluminam os banhos e permitem ligações visuais entre as habitações animadas por peixes, algas, estrelas ou flores.

Nos alçados, o cunho do arquitecto, foi assinado pela conjugação da arquitectura com outras artes, são aberturas peculiares que os rompem: o grande círculo que ‘olha’ a rua, a pedra mármore que se desloca e fica a pender no vão, gravações no mármore que ‘brincam’ com o transeunte que passa na rua: mulheres gravadas na pedra que cortam a relva, o modulor de Le Corbusier que acena a quem passa e se esconde por trás da portada, os peixes e algas gravados nos mármores dos lagos animam e poetizam o lugar.

FICHA TÉCNICA


 

Projecto de Arquitectura / António Fernandez, Architects

Autores / António Fernandez, Ema Rosmaninho

Engenharia / Abílio Rodrigues

Construtor / Consarte, Lda

Localização / Aver-o-Mar, Póvoa de Varzim

Data do Projecto-Conclusão / 2003-2007

Publicações

Arquitectura e Construção nº 52 – Portugal